Nem não, nem sim
O que significa fazer parte de um grupo de amigos que tocam?
Pois é. As pessoas pensam que começa e acaba ali. Mas não é não.
Para o ré da minha guitarra, combinar com o lá do contra-baixo e combinar com a tercina da bateria e combinar com a ambientação do sintetizador, e para que tudo isso vire mais do que mais uma canção-improvisada, a gente tem que fazer muito mais: jogamos futebol juntos, cozinhamos juntos, brigamos um com o outro e damos um tempo juntos.
Nem tudo é exatamente como a gente quer, mas isso é melhor ainda! Podemos até reclamar!
As vezes eu penso: "Pô, tá bom. To curtindo pra caralho, isso que vale. A galera é muito firmeza". E, em outras, eu penso: "Pô, tá uma bosta, pelo menos pra mim. Eu to meio de gaiato, vou deixar os caras na deles. Isso não é minha praia". Ai não sei o que fazer.
Desapareço uns tempos. Ninguém entende, nem eu mesmo. Não consigo falar boa parte das coisas mais importantes pras pessoas mais queridas e isso se deve a seriedade com a qual eu tenho essas relações.
Porém, recentemente, aprendi a improvisar com o coração, seja aonde for: numa escala de Lá Menor ou na quadra do Carlão. Aprendi a responder com sinceridade a estímulos exteriores.
Ainda falta aprender a fazer nascer. A criar e expulsar de sí a estrela bailarina.
Enquanto isso, vamos jogando baralho juntos, vendo TV, cozinhando vaca-atolada e descobrindo as tecnologias musicais. Das muitas coisas que fazemos juntos, só há uma que fazemos juntos e separados, concomitantemente: Devagar e sem pressa, vamos amando juntos e separados. Cada um com seu qual, cada um com seu todo.
Todo que nasce e cresce dentro de sí.



